Tecnocracia: O Passado Esquecido e o Futuro Inevitável?
Quando o mundo está em chamas, sempre surge alguém com a promessa de apagar o incêndio com gasolina. Em 1930, em meio ao colapso econômico e social da Grande Depressão, um grupo de engenheiros e cientistas decidiu que os políticos eram peças defeituosas no grande maquinário da civilização. A solução? Trocar a retórica vazia pela lógica exata, as campanhas eleitorais pelos cálculos matemáticos e os líderes eleitos por especialistas revestidos de números e gráficos.
Assim nasceu o Movimento Tecnocrático, um experimento ousado que via na ciência a única bússola confiável para guiar a sociedade. Para seus idealizadores, a democracia era uma relíquia enferrujada, o capitalismo um sistema falido e a política um jogo de ilusões. A nova ordem seria fria, racional e eficiente — um mundo governado como uma planilha de Excel, onde cada decisão seria exata e inquestionável. Mas a pergunta que ecoa até hoje é: será que podemos mesmo confiar no julgamento infalível dos números? Ou a tecnocracia não passa de uma ditadura vestida com o jaleco da ciência?
No auge de um período histórico caótico, a recessão econômica colocou o berço da democracia em xeque. A Grande Depressão levou milhares de pessoas ao suicídio e à falência moral e financeira. Diante desse cenário, um grupo de intelectuais e cientistas forjou uma solução radical para a crise econômica e social: substituir políticos e empresários por engenheiros e cientistas. Um governo conduzido por pensadores e especialistas de cada área.
Assim nasce o Movimento Tecnocrático, uma tentativa de redesenhar a sociedade com base no conhecimento concreto e na gestão racional dos recursos.
A liderança do movimento ficou a cargo do engenheiro Howard Scott, um indivíduo carismático e polêmico, defendia que o capitalismo tinha fracassado e que a democracia era um sistema ultrapassado. Segundo Scott e seus apoiadores, somente a ciência poderia proporcionar uma gestão eficaz e equitativa dos recursos.
Em 1919, Howard estabeleceu a “Aliança Técnica” em Nova York, congregando cientistas e engenheiros que defendiam um governo racional e focado na eficiência. Essa concepção ganhou corpo em 1933, com a fundação da “Technocracy Inc.”, que alcançou a marca de mais de meio milhão de membros.
O movimento defendia um modelo denominado Tecnato, onde a sociedade seria gerida por especialistas, sem qualquer envolvimento político ou empresarial. Uma de suas principais concepções era o fim do dinheiro, trocando moedas e notas por “certificados energéticos”, cujo valor seria determinado pela energia requerida para a produção de bens e serviços. Adicionalmente, era a favor de uma carga horária de trabalho enxuta, onde cada pessoa trabalharia apenas 16 horas por semana, começando aos 25 anos e se aposentando aos 45. O Tecnato também previa o término das divisões sociais, assegurando que todas as demandas, tais como habitação, saúde e educação, fossem atendidas pelo Estado tecnocrático. Finalmente, a democracia seria suprimida, e todas as decisões seriam exclusivamente tomadas por engenheiros e cientistas, extinguindo a política convencional.
Quanto a questão política, os tecnocratas presumiam estar distante do espectro, tanto que faziam “o comunismo parecer burguês”, segundo Scott. Rejeitavam qualquer aproximação dos ismos do período, como socialismo, fascismo e liberalismo. Vale a pena ressaltar que é justamente nesse momento histórico que estão pipocando tais movimentos, o que é também curioso pensar esse momento, em relação a insatisfação com a democracia.
Entre as mentes que administravam o movimento, destacava-se H. G. Wells, renomado escritor de ficção científica. A expansão dessa ideologia governamental teve forte influência no Canadá, onde Joshua Halderman, avô de Elon Musk, liderou a facção tecnocrática no país. A peculiaridade dos tecnocratas ia além de suas propostas para governar uma nação. Eles adotavam vestimentas cinza, pintavam seus carros da mesma cor e se identificavam por números, como 1x1809x56. Além disso, possuíam um símbolo oficial, a “Mónada”, uma bandeira com um círculo vermelho e branco que representava o equilíbrio entre produção e consumo.
O Movimento Tecnocrático, que um dia sonhou em substituir políticos por engenheiros e administrar a sociedade como uma máquina bem lubrificada, perdeu força nos anos 1940. O New Deal de Franklin Roosevelt começou a remendar as fissuras deixadas pela Grande Depressão, e, com a economia respirando novamente, o apelo por soluções radicais se dissolveu como névoa ao sol. Sem o desespero como combustível, a Technocracy Inc. entrou em declínio, tornando-se pouco mais que uma nota de rodapé na História.
Mas ideias, como sementes ao vento, não morrem — apenas encontram novos solos para germinar. No Vale do Silício, onde a inovação é o novo oráculo, bilionários como Elon Musk e Andrew Yang resgatam ecos do velho tecnato ao defender a renda básica universal como antídoto para a automação e a desigualdade. Empresas como a Amazon, por sua vez, implementam sistemas automatizados de previsão de demanda que fariam os tecnocratas originais sorrirem em aprovação.
O Movimento Tecnocrático foi a resposta de sua época para um mundo à beira do colapso, uma tentativa de redesenhar a sociedade com a frieza dos números e a precisão dos cálculos. Não vingou, mas deixou marcas. No século XXI, onde algoritmos moldam eleições, inteligência artificial substitui gestores e megacorporações desafiam governos, a pergunta ressurge como um espectro: a tecnocracia é o próximo passo da civilização ou um atalho perigoso para o fim da democracia?
A História é cíclica, mas seus fantasmas nunca vestem os mesmos trajes. O Movimento Tecnocrático pode ter se desfeito como fumaça nos anos de 1940, mas suas ideias não foram enterradas — apenas migraram para novos palcos. No Vale do Silício, bilionários falam em automatizar tudo, desde empregos até políticas públicas. Governos cada vez mais dependem de algoritmos para decidir o destino de milhões. E a democracia, já desgastada por sua própria ineficiência, continua sendo vista por muitos como um problema a ser resolvido — de preferência, por alguém com um doutorado e uma planilha bem-feita.
O sonho tecnocrático nunca morreu; ele apenas trocou os velhos ternos cinza pelos uniformes invisíveis da inteligência artificial. O que antes era um movimento utópico virou uma distopia silenciosa, embutida na forma de recomendações algorítmicas e decisões automatizadas. Se antes os tecnocratas queriam substituir políticos por engenheiros, hoje os engenheiros criam sistemas que fazem política sem que ninguém perceba.
Afinal, quando tudo é controlado por números, quem é que se lembra de perguntar quem os escreveu?