Siga o Bastião

Hi, what are you looking for?

COLUNAS

Jânio Quadros: Os meses que entraram para a história

ARTIGO MARCELO JANIO QUADRO SITE

Jânio Quadros: Os meses que entraram para a história

            Neste artigo abordaremos uma das mais singulares figuras políticas que já participou do jogo democrático brasileiro. Jânio da Silva Quadros nasceu em Campo Grande, centro oeste brasileiro, no ano de 1917. Foi uma figura proeminente da política Brasileira, dentre suas várias atuações políticas, ele se destacou por ser governador de São Paulo na década de 50, presidente da república em 1961 por alguns meses até sua renúncia, e prefeito eleito por São Paulo. Aparentemente, pode se tratar de um político comum, como vários outros que já existiram no Brasil, mas existe algo em Jânio que é muito singular, as suas características carismáticas que remetem aos tipos ideais populistas que tanto chamam a atenção de historiadores e pesquisadores da política.

            Sobretudo sua campanha presidencial, seguida dos seus sete meses de mandato, foi algo que se destacou na história e adicionou elementos inovadores na política brasileira.

            Debatendo afundo a campanha de Jânio, Jefferson José Queller argumenta que a propaganda politica em torno de Quadros não foi apenas o resultado de uma estrutura tecnocrática, que contou com um maciço investimento e uma poderosa coligação partidária, mas um esforço coletivo de diversos grupos sociais que buscavam defender seus interesses e perspectivas politicas.

Olhando friamente, o desafio de Jânio era muito grande, ele não era de família tradicional e também não era rico. Seu principal desafiante era Henrique Teixeira Lott, um general prestigiado e conhecido por evitar um golpe de estado e garantir a posse de Juscelino Kubitschek. O grande abraço à campanha de Jânio se deu porque houve uma mobilização exitosa de amplos setores da sociedade, setores abastados acreditavam no potencial de Jânio ser um promotor da industrialização e do desenvolvimento econômico do Brasil. A camada mais pobre da população também lhe entregou uma quantidade significativa de votos, por acreditar na figura de Jânio como um candidato dissociado de práticas políticas tradicionais, no qual em sua campanha promoveu uma imagem de autenticidade e compromisso com a defesa de melhores condições de vida, ressoando com o eleitorado insatisfeito com a alta inflação e desigualdade social. Notamos que Jânio, de forma orgânica, conseguiu um apoio maciço que explica sua ascensão meteórica, ele foi um dos primeiros agentes populistas a incorporar ações e discursos que simultaneamente, criticavam as condições precárias dos trabalhadores e as práticas exploratórias das grandes empresas, ao mesmo tempo em que defendia pautas moralistas, como a censura à exibição de seios no cinema. Além disso, ele se engajava na defesa da moralização do serviço público, com foco em medidas anticorrupção, isso era um aceno tanto à esquerda quanto à direita, sendo seus discursos carregados de encenação. Quanto a essa característica, Oliveira argumenta:

Não tinha tempo para cuidar da aparência, mas o que lhe faltava em apelo estético era compensado por sua notória inteligência e capacidade de arguição, embebido de carisma, fez de suas palavras armas poderosas. Através de seus discursos era capaz de recrutar uma massa de apoiadores em torno de um ideal capaz de promover soluções aos graves problemas que ameaçavam a sobrevivência e ultrajavam a dignidade de um povo abandonado. (Oliveira, 2021, pág. 20)

O empreendimento eleitoral de Jânio angariou grande sucesso por conseguir reavivar o sentimento que estava anestesiado desde o fim da era varguista, a figura do grande líder, aquele que cuida do povo e resolve os problemas, disruptivo e a favor do direito comum das massas, que ao ser eleito buscaria ações diferentes das praticadas por seus antecessores. O fenômeno eleitoral de Jânio pode ser lincado com aquilo que conhecemos na teoria da história como “História das Mentalidades”, teoria trabalhada por Braudel e Le Goff que tratam da longa história presente na mentalidade das pessoas que habitam a sociedade, ideias que moldam, persistem e caracterizam o tecido social daquela sociedade. A figura populista protagonizada por diversos atores, como neste caso Jânio, são responsáveis por reviver, de tempos em tempos, sentimentos e elementos característicos e moldadores de certas sociedades, e por consequência angariar grande fama e sucesso eleitoral.

Tal fenômeno não se encerrou em Jânio, constantemente no Brasil, grandes lideranças despontam no cenário nacional, onde são poucas as bases racionais capazes de explicar tal paixão por aquele indivíduo. Em regra, a estratégia de comunicação desses agentes segue padrões que buscam despertar no inconsciente coletivo elementos que o fazem ser entendido como um ponto de segurança para entrega das principais demandas sociais, mesmo que seu histórico e práticas políticas possam não corroborar com este anseio, e em certos casos até mesmo andar na contramão de seu discurso e imagem idealizada.

            Voltando a Jânio, após sua vitória eleitoral para presidência em 1961, cumprir suas promessas e corresponder aos anseios gerados se tratava de uma tarefa muito complicada, algumas até inexequíveis. Governar era muito diferente de fazer campanha, ternos amarrotados, gravatas tortas e encenações não lhe dariam resultados práticos exercendo poder. Dito isso, seu governo desde o início não ganhou tração; dificuldades com o congresso, uma política internacional dúbia frente à URSS e EUA lhe deixavam em maus lençóis. Jânio tentou repetir a receita da campanha de sinalizar para todas as frentes, mas frente à responsabilidade de exercer poder, isso é a receita do fracasso. Sua política econômica não possuía firmeza, alternava entre medidas de austeridade e desenvolvimentismo, o que deixava o país à deriva, com um futuro incerto.

            Sua oposição crescia cada vez mais, era constantemente acusado de ser despreparado, desequilibrado e, digamos… exercer práticas pouco republicanas no ato da administração pública. Mas tudo entrou em colapso quando o conhecido “Demolidor de Presidentes”, o histórico jornalista Carlos Lacerda, acusou Jânio Quadros de conspirar um golpe de estado.

            Embora até hoje não haja comprovações de que Jânio realmente tenha tentado um golpe de estado, fato é que ele estava em uma situação incontornável e com poucos recursos institucionais para amenizar sua crise política. A reação de Jânio frente a tudo isso até hoje deixa historiadores e analistas embasbacados. Um dia após a denúncia de Carlos Lacerda, em 25 de agosto de 1961, Jânio apresenta sua carta de renúncia. Ao que tudo indica, Jânio queria causar um distúrbio interno, apostando que as forças políticas e populares não aceitariam João Goulart (Vice-presidente) e que ele retornaria ao poder aclamado e com melhores condições institucionais para exercer poder. Fato é que nada disso aconteceu, os parlamentares apenas aceitaram sua carta de renúncia e João Goulart se tornou presidente da República.

 

            O que fica de conteúdo relevante para os analistas e historiadores ao estudar o empreendimento eleitoral e pouco mais de sete meses de mandato de Jânio, é justamente o desafio de compreender como figuras carismáticas, conseguem ascender ao poder. A história manifesta padrões a partir da cultura, mentalidade e imaginário de seu povo, se torna fundamental estudar a história de Jânio, pois sua trajetória sobressai seu próprio período histórico, e passa a ser analisada dentro da metodologia que Max Weber chama de tipo ideal, uma construção analítica utilizada para entender e comparar fenômenos sociais complexos, neste caso a figura populista latino-americana, no qual Jânio se assemelha em características com Getúlio Vargas, Juan Domingo Perón, Lázaro Cárdenas, e até mesmo figuras brasileiras mais recentes como Luís Inácio Lula da Silva e Jair Messias Bolsonaro.

 

REFERÊNCIAS

QUELER, Jefferson José. Quando o eleitor faz a propaganda política: o engajamento popular na campanha eleitoral de Jânio Quadros (1959-1960). Tempo, 2010.

OLIVEIRA, Breno Eiterer de. Assim falava Jânio Quadros: os discursos do candidato à presidência (1959-1960). Repositório Institucional da UFJF. 2021.

CARDOSO, Ciro Flamarion; VAINFAS, Ronaldo (Orgs.). Domínios da História: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997.

PESAVENTO, Sandra Jatahy. História & História Cultural. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2014.

QUELER, Jefferson José. O governo Jânio Quadros: entre a política e o personalismo In: Ferreira, Jorge Luiz e Delgado, Lucilia A Neves (orgs.). O Brasil Republicano. Vol. 3: O Tempo da Experiência Democrática. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2019.

FICO, Carlos. História do Brasil contemporâneo: da morte de Vargas aos dias atuais. São Paulo: Contexto, 2015.

Clique para comentar

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você também pode gostar

COLUNAS

Nosso país, caro leitor, parece caminhar rumo a um abismo de destruição mútua. O povo, ao que tudo indica, tem uma estranha inclinação para...

Últimas notícias

10 Principais Mudanças da Reforma Tributária O primeiro projeto de regulamentação da reforma tributária foi sancionado pelo presidente Lula, com 17 vetos. Em coletiva...

COLUNAS

Um jogador vem conquistando e chamando a atenção nas terras tupiniquins há um certo tempo, principalmente desde que adquiriu, em outubro de 2022, uma...

BOLETINS

Boletim – CXIV A Volta de Trump: Impactos e Polêmicas no Cenário Global Donald Trump tomou posse como o 47º presidente dos Estados Unidos,...

Últimas notícias

O prefeito de Goiânia, Sandro Mabel, anunciou a criação de um gabinete de crise em parceria com o governo estadual para enfrentar os impactos...

COLUNAS

Caro leitor, nas últimas décadas, uma nação soberana vem se destacando em vários segmentos, como o econômico, o militar e, principalmente, o tecnológico. O...

COLUNAS

As terras tupiniquins nunca decepcionam. Diante de tantas polêmicas, fatos ou boatos, podridão e cancelamento: viva o Brasil! Onde seus governantes prestam vassalagem ao...

COLUNAS

Artigo por Marcelo Ribeiro Silva Júnior Benedita Cypriano Gomes, conhecida como Santa Dica de Goiás, foi uma mulher natural de Lagolândia (distrito pertencente ao...

COLUNAS

Donald Trump tomou posse como o 47º presidente dos Estados Unidos, e, como era esperado, o evento gerou uma onda de debates e especulações...

BOLETINS

Boletim – CXXIII O Futuro da Medicina: Robôs, IA e os Desafios de uma Revolução Silenciosa Caro leitor, nas últimas décadas, uma nação soberana...

plugins premium WordPress