A Banana Já Não é Mais Tropical – Ou Mesmo Sólida
A primeira vez em que ouvi falar que uma “obra de arte” havia sido deglutida, por assim dizer, tive de me controlar para não jogar o celular para fora da janela e dar um grito absolutamente tenebroso.
Não propriamente porque era um insulto alguém comer uma obra de arte, mas porque eu conheço o momento histórico em que vivemos e sabia que a probabilidade do que estava na pança alheia (ou já havia sido digerido e estava perambulando por algum esgoto, àquela altura), muito provavelmente não era, de fato, arte.
Infelizmente, não tenho tempo para entrar em grandes discussões sobre “o que é” e “o que não é arte”, embora existam, sim, respostas contundentes para definir isso, e pouquíssimas delas contêm argumentos subjetivos, ao contrário do que querem nos fazer crer os pseudointelectuais ou “connaisseurs” que enchem galerias de Nova Iorque a Paris, de São Paulo a Milão, de Madrid a Tóquio, tanto para vender como para comprar algumas pífias reminiscências, verdadeiras sombras do que um dia pôde ser considerado arte; além, é claro, de presenciar as mais bregas performances e instalações que somente a elite global poderia considerar dignas, por serem pessoas facilmente enganáveis ouvindo palavras um pouquinho mais complexas do que seus preciosos cérebros conseguem compreender e quererem demonstrar fazer parte do grupinho privilegiado que, ao contrário da ralé, sabe de verdade “o que é arte”.
Mas voltemos à maldita obra, que fez a banana virar fruta non grata em minha mente. Eu só conseguia pensar em uma coisa: “A arte está morta. A arte permanece morta. E nós a matamos”. Embora eu discorde absolutamente da tese original de Nietzsche onde a palavra “arte” é substituída por “Deus”, não pude deixar de fazer esse paralelo em minha mente. Isso, sim, foi o que chamo de golpe!
Pelo menos desde Marcel Duchamp, com seu famoso mictório virado ao contrário e denominado “A Fonte”, já estávamos brincando com um dos grandes pilares da civilização humana que é sagrado e não deve ser profanado sob hipótese alguma. Entretanto, depois disso, fomos ladeira abaixo sem dó.
Veja, não sou contra a experimentação artística. Pelo contrário: acredito que o artista pode e deve experimentar técnicas, meios, formas, estilos etc. para realizar a sua arte – seja de qual gênero for. Mas, para que o resultado final seja, de fato, uma obra, é preciso que se atinja um estado em que o caos criativo tenha sido transformado em ordem.
Aliás, algo ainda mais sublime: harmonia. Sim, pode ter havido experimentação e inovação para se chegar lá, mas numa obra verdadeira, a técnica também é crucial. E, sobretudo, elementos que nos levem à transcendência. Acima de tudo, uma obra de arte que faça valer seu nome deve nos elevar, tirar-nos do estado comum das coisas, fazer com que paremos para admirá-la simplesmente por sua aura, como talvez diria Walter Benjamin, um filósofo que foi contra a fotografia por achar que ela, por ser reprodutível, não contia esse elemento (algo que pode ser discutido em outro texto).
E mais: uma verdadeira obra de arte é compreendida com o corpo, com a essência humana, com a alma – chame do que quiser! – e não com a intelectualidade. O que quero dizer é que um texto que explique o que é uma obra não deve ser mais relevante do que a obra em si. Isso não somente é ridículo, como torna a obra inacessível e elitista – e voltamos a andar em círculos, porque a elite quer se diferenciar da ralé, como eu havia mencionado antes, não é mesmo?
Além disso, vivemos na maldita modernidade líquida – uma tese de Zygmunt Bauman que permeia vários campos políticos e que considero relevante e pertinente. As instituições estão cada vez mais instáveis, as relações e os relacionamentos confusos, e parece que vivemos na corda-bamba em vários aspectos da sociedade. Estou generalizando justamente para não ficar horas falando sobre cada aspecto específico dessa teoria.
Quando se trata da arte, então, o sólido se transforma em líquido mais rapidamente do que um raio atingindo uma árvore em um temporal, e tragédias como a da banana pregada na parede acontecem – e com patrocínios caríssimos, enquanto continuamos a desprezar potenciais “Van Goghs” anônimos. Neste ponto, talvez não tenhamos mudado tanto.
Por sinal, a tal banana na parede, por ser considerada arte, tem nome e um artista que a criou, vejam só: “Comedian”, de Maurizio Cattelan. Supostamente feita para satirizar o mercado da arte, seu comércio desenfreado e a mercantilização da própria vida, além de provocar discussões sobre “valor e significado na arte contemporânea”, pergunto-me se a verdadeira intenção do suposto artista não era fazer comédia com a cara de quem comprou sua obra original por 120 mil dólares, e a de todos os elitistas que viram qualquer valor estético e de significado nela ou de relevância em sua crítica, ao Guggenheim Museum, que chegou a abrigar a obra, e à Sotheby’s, a Casa de Leilões de arte mais famosa do mundo que estava para vender uma terceira edição dela no final de outubro de 2024 – isso depois de “Comedian” ter viajado por museus do mundo e sempre surgirem notícias de pessoas, geralmente alunos do ensino médio ou fundamental, terem comido a banana “porque estavam com fome” e “não sabiam se tratar de uma obra de arte”.
A compra foi feita: um magnata chinês de criptomoedas chamado Justin Sun arrematou-a pela bagatela de 6,2 milhões de dólares. E a comeu, para honrar a obra.
Não me admira que há um tempo alguém deixou um objeto, se não me engano um par de óculos, no canto de um museu – ou algo tão pitoresco quanto isso – e as pessoas começaram a fotografar por acharem que se tratava de uma obra importantíssima.
Fora isso, recentemente vi um meme na internet que resume muito do meu sentimento de raiva, inadequação e vergonha alheia quanto à suposta “arte” do século XXI, que já respirava por aparelhos desde o século XX: um homem de meia-idade, escultor, talhando e esculpindo suas obras belas e detalhadas, enquanto no vídeo se intercalavam diferentes performances sem sentido, uma mais ridícula que a outra.
É, meus caros. Não é somente o mundo da arte que está perdido e em declínio, mas, já que é ele que está sendo abordado neste artigo, só posso dizer o seguinte: daqui a algum tempo, o famoso desenho da “evolução dos primatas até o homem” terá que ter um plot twist: o homem voltará a ficar cada vez mais curvado e burro e voltará a comer bananas – dessa vez, pregadas em paredes.
Por Ana Mercury
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